sexta-feira, 11 de abril de 2008

Dinnertime and the living's not easy

Tateando o bolso por umas moedas, descubro um papel. Imagino que o papel seria um tostão qualquer, esquecido nas profundezas no mar sem fim. Fico até feliz e saco a cédula que, na verdade, era não mais que uma nota fiscal, dessas impressas nos cafés, supermercados e puteiros. Sento e dou uma olhada: café, manjericão fresco, meio quilo de vitela, vinho e abobrinha. Meu assombro era grande. Era a nota. A nota daqueles ingredientes que faltavam para o jantar com X. Numa explosão de recordações, aquele dia foi tomando conta de minhas vias todas, até que me vi sem fôlego. Vi, num instante, os cabelos e os olhos de X, me fitando, do outro lado da mesa, interrogação nas sobrancelhas. O que seria, depois do jantar? Não, não seria nada. Não poderia ser. Era uma daquelas coisas em que as pessoas se encontravam, sabendo já todo o script, mas fingiam desconhecer o protocolo e transformavam os momentos todos numa peça mal ensaiada, tentando desesperadamente fazer com de cada movimento uma novidade.

'-Olha, eu fiz abobrinha recheada, você gosta, não é?' Sim, eu sabia que gostava, mas alguém tinha que levantar o pano. '-Sim, gosto. Parece bom. Tem certeza que foi você quem fez?' X sabia, também, o papel que havia lhe sido reservado. Não faria de outra forma. '-Ora, mas essa besteirinha? Não levou trinta segundos. Essas coisas já vêm quase prontas [meio sorriso], não precisei fazer quase nada.' E o jantar seguiu o curso pró-forma. Nada saiu errado, nem poderia. Sabíamos nosso papel, o roleplay pré-coital que já havíamos tantas vezes desempenhado. Mas dessa vez era diferente.

Dois dias antes meu celular tocara e a voz de X, ao telefone, dizia: 'Vou embora.' Na falta de uma réplica minha, X acrescentou: 'É de vez. Vou segunda e não volto mais.'

Sim, definitivamente dessa vez era diferente. X, todavia, não me conhecia. Imaginava que minhas células, ácaros e fios de cabelo estivessem todos em decomposição ante o fato inevitável. Esperava, até, que me desfizesse em lágrimas, me transformasse em matéria liquefeita e substituísse a sopa do prato. Mas neca. Impávido, colosso, não me permitia qualquer movimento que não os ensaiados tantas e tantas vezes, enquanto descascava as batatas do jantar.

X foi embora. Não houve lágrimas nem grandes despedidas. Papéis desempenhados à maestria. O erro havia sido um, apenas.