segunda-feira, 5 de maio de 2008

o barco

Almoço de domingo sozinho numa mesa dum bistrô muito acima das minhas possibilidades. Mas foda-se: já que é pra comer só, que seja pelo menos uma coisa feliz. Na mesa, um papelzinho quadrado. A comida demorando demais, começo a dobrar o papel acompanhado por Dona Stella, reverendíssima senhora de quase sete séculos [o sobrenome é Artois; ainda por cima acumula a elegância de ser belga] vira e mexe faz um trabalho arqueológico que deixa Indiana Jones no chinelo, desenterrando as lembranças mais escondidas; e essa estava, no mínimo, na gaveta mais alta e menor da estante do hipotálamo:

Mamãe nunca foi a pessoa mais paciente do mundo, e, ante a perspectiva de passar 34 dias de férias comigo em casa, enlouquecia. Me despachava logo pruma colônia de férias [ou penal?] quase divertida. A gente comia umas pipocas dessas de sinal de trânsito, via uns desenhos bacanas e sentava em círculo pra aprender origami com uma tia que, pelo que me lembro, parecia ter síndrome de Down. Como meu interesse por origami, à época, era igual ou menor que meu interesse pela economia da Guiné-Bissau, nunca aprendi a fazer nada que não fossem barquinhos. E foram milhares de barquinhos. Várias cores, tamanhos, estampagens e combinações. Virou obsessão. E me veio uma idéia: peguei o mapa mundi de War e resolvi que chegaria a Vladivostok de barco. Juntei jornais, muitos jornais. Forrei a sala quase todinha de jornais. Dobrei, dobrei, dobrei. Saiu um barco, digamos, estranho: na popa era uma foto de Lady Di morta, num dos flancos o Tamagochi era a novidade e, no piso, os classificados.

Nunca cheguei a canto algum mas fui, ali, colando e dobrando jornais, muito mais feliz que Colombo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Barcos são feitos para navegar também.

te acho interessante.

Nina Arierref disse...
Este comentário foi removido pelo autor.