quarta-feira, 14 de maio de 2008

Recife, a Kandahar brasileira.

Manhã de chuva, café e cigarro no taxi, a caminho do trabalho. Tudo normal. Trâsito lento, impaciência e todas essas coisas que se acumulam no período que vai das seis às oito da manhã. E eis que, nesse período, num sinal de trânsito, vejo uma velhinha no carro da frente ser assaltada por dois sujeitos numa motocicleta. Normal, estamos em Recife. Chego ao trabalho -- no Recife Antigo, que é, supostamente, uma ilha de segurança -- e minha aluna vai dizendo: 'Teacher, A. foi assaltada agorinha aqui na frente, tu visse?' Não, ainda bem que eu não vi. Veja bem, meu caro [e possivelmente único] leitor: não são nem oito da manhã e já estamos no segundo assalto.

Ok, ok, como a gente por aqui já se acostumou a essas eventualidades, nada mais assombra. Até que, almoçando, bato os olhos na página policial da Folha de Pernambuco: três assassinatos por página. Quatro páginas. Putamerda, tudo em vinte e quatro horas.

Num giro rápido pelo google, achei o número de civis mortos em função da guerra no Afeganistão em 2006: aproximadamente mil. Num outro giro, dessa vez no PE Body Count, verifiquei que até agora, este ano, foram 1.666 assassinatos aqui em Recife.

Ou seja, Doutor Governador, tá na hora de mudar a alcunha da capital: Recife, a Kandahar brasileira.


Ps.: Recife, a exemplo de Veneza, é cortada por rios e canais, de modo que ficou conhecida como a Veneza brasileira.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Besame mucho

Hei de confessar: meu primeiro contato com o México foi uma novela. Mas há justificativa, eu não tinha mais que dez anos e tia Margô era viciada. Anos depois, vendo Ethan Hawke e Gwyneth Palthrow bailando em Grandes Esperanças uma música ficou: Besame Mucho. Besame, besame mucho, como si fuera esta noche la ultima vez.
A sofreguidão das palavras, a cadência, a delícia de tudo faz com que meu corpo todo fique eriçado. Não há uma célula sequer que fique estática ante a magnanimidade dos acordes sedosos mas tenazes da música. É delícia pura, é sensualidade, é a imagem de Rita Hayworth dançando empacotada num Chanel preto*.
*Ao que me consta, Ms Hayworth nunca filmou Besame Mucho, mas me é facultado o direito de imaginar o que me convier.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

the birth of the cool

Antigamente, no quarto do armário de vovó havia uma radiola 33rpm e uma coleção de discos que refletia a natureza caótica da casa: Janis Joplin, Ella Fitzgerald, Ray Conniff, Marisa Monte, Michael Jackson, Brahms, Madonna. Não havia uma ordem lógica de arquivamento e os LPs iam sendo empilhados a medida em que iam sendo ouvidos pelos habitantes, reclusos no quarto mais afastado da casa, sem que ninguém trespassasse a parede musical que ia sendo erguida, selando o cômodo inteiro.

Como não poderia deixar de ser, acabei aderindo ao movimento do 'se tranca no quarto e ouve música'. Foi acidental. Havia a lenda de que vovó guardava os presentes de aniversário comprados antecipadamente nesse quarto e minha diversão maior era procurar por todos os buracos até encontrar um embrulho. Eventualmente me dei conta de que jamais encontraria nada e acabei desviando minha atenção pra pilha de discos, que foram sendo ouvidos, ouvidos, ouvidos até que primeiro ouvi Ella berrando Summertime. Ella e Louis, mais precisamente. Minha vida nunca mais foi a mesma.

Summertime, George Gershwin

Summertime,
And the livin' is easy
Fish are jumpin'
And the cotton is high
Your daddy's rich
And your mamma's good lookin'
So hush little baby
Don't you cry
One of these mornings
You're going to rise up singing
Then you'll spread your wings
And you'll take to the sky
But till that morning
There's a'nothing can harm you
With daddy and mamma standing by

Summertime,
And the livin' is easy
Fish are jumpin'
And the cotton is high
Your daddy's rich
And your mamma's good lookin'S
o hush little baby
Don't you cry

domingo, 11 de maio de 2008

Cousas do domingo

Quando havia menos coisas a se fazer, eu costumava assistir a um programa no People & Arts chamado Minha Casa, Sua Casa. Um desses reality-shows que nem fedem nem cheiram mas que, no fim das contas, divertem um pouquinho. Foi aí que me veio a idéia: e se, como no programa, eu pudesse pegar uma coisa da minha vida que não fosse assim muito legal, ligasse pro pessoal lá, que viria e deixaria tudo bem direitinho? Seria bacana, né?

***
Personagens: Eu, Audrey [a gata], uma formiga, um jornal e um vaso de manjericão.
Cenário: Uma varanda com muitas plantas; do lado de fora chove.
Duração: 3 segundos.
Viro a página E14, onde havia acabado de ler sobre tamancos assassinos na Europa e resolvo dar uma espiada por cima do jornal. Audrey, compenetradíssima, acompanha com as orelhinhas atentas os movimentos de uma formiga pelo vasinho de manjericão. Marca posição de ataque. Eu abro a boca, vou gritar. Audrey arma o bote, quer agarrar a formiga. BUM! O pobre do manjericão é mandado pelos ares e cai por cima de mim. Putamerda, seja bem vindo ao meu domingo. E a formiga, a propósito, saiu ilesa.
***
Não há nesse mundo nada mais desumano que ser acordado por buzinas de carros às oito da manhã de um domingo. Mas vamo lá, Recife é uma cidade mal educada e phodeu. Acordo, saio para tomar café e comprar o jornal. Vou andando pela rua e pensando: 'que tipo de pessoa encontra a felicidade sentado num banco de parque, lendo o jornal com uma xícara de café?'
É, sou estranho.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

o barco

Almoço de domingo sozinho numa mesa dum bistrô muito acima das minhas possibilidades. Mas foda-se: já que é pra comer só, que seja pelo menos uma coisa feliz. Na mesa, um papelzinho quadrado. A comida demorando demais, começo a dobrar o papel acompanhado por Dona Stella, reverendíssima senhora de quase sete séculos [o sobrenome é Artois; ainda por cima acumula a elegância de ser belga] vira e mexe faz um trabalho arqueológico que deixa Indiana Jones no chinelo, desenterrando as lembranças mais escondidas; e essa estava, no mínimo, na gaveta mais alta e menor da estante do hipotálamo:

Mamãe nunca foi a pessoa mais paciente do mundo, e, ante a perspectiva de passar 34 dias de férias comigo em casa, enlouquecia. Me despachava logo pruma colônia de férias [ou penal?] quase divertida. A gente comia umas pipocas dessas de sinal de trânsito, via uns desenhos bacanas e sentava em círculo pra aprender origami com uma tia que, pelo que me lembro, parecia ter síndrome de Down. Como meu interesse por origami, à época, era igual ou menor que meu interesse pela economia da Guiné-Bissau, nunca aprendi a fazer nada que não fossem barquinhos. E foram milhares de barquinhos. Várias cores, tamanhos, estampagens e combinações. Virou obsessão. E me veio uma idéia: peguei o mapa mundi de War e resolvi que chegaria a Vladivostok de barco. Juntei jornais, muitos jornais. Forrei a sala quase todinha de jornais. Dobrei, dobrei, dobrei. Saiu um barco, digamos, estranho: na popa era uma foto de Lady Di morta, num dos flancos o Tamagochi era a novidade e, no piso, os classificados.

Nunca cheguei a canto algum mas fui, ali, colando e dobrando jornais, muito mais feliz que Colombo.

sábado, 3 de maio de 2008

Dentro do Pão de Açúcar da esquina daqui de casa tem um café meio sem graça, onde a xícara nunca é da mesma família que o pires e o café sempre sai errado. Mas como é o mais próximo, acabo sempre indo por lá. Inevitavelmente, entre um espresso e um cigarro, me ponho a olhar os carrinhos alheios. E vou construindo a vida de fulano, de sicrano, daquela gorda com a bolsa vermelha, do garoto de programa acompanhando o sugar daddy, do mauricinho carregando duas caixas de Johnnie. É divertido.

Eis que dia desses, sentado lá, começo a observar meu próprio carrinho. Nada de muito interessante ou suspeito, mas lá estavam. Eram duas, as latas de Coca-Cola. Que tipo de pessoas compra duas latas? Coca-Cola é comprada aos litros, galões, tanques, ou seja lá qual for o maior vasilhame disponível no momento. E aí que me dei conta: putamerda, estar sozinho é patético.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Nostalgia sempre foi meu nome do meio. Ante a escolha da novíssima cerveja e uma fabricada há 340 anos, a segunda sempre foi minha opção primeira. Sempre. Até musicalmente falando, sou nostálgico. Meu gosto musical vai, quando muito, até os anos 60. Esse anacronismo crônico sempre foi uma pedra social no meu sapato numa época em que quando fulando de tal está saindo na capa de uma revista bacana pode, ao mesmo tempo, já ter deixado de existir. Não há mais ídolos absolutos e meninos não fazem coisinhas pseudobscenas só em pensar nas pernas de Rita Hayworth -- que por sinal suscitou coisinhas pseudobscenas durante umas três décadas.

A efemeridade das coisas todas me incomoda profundamente. O que é hoje não é amanhã. Que porra é essa? As pessoas não têm mais tempo de marinar um frango -- vão ao supermercado e compram um já pronto, preferencialmente já destrinchado ao gosto do freguês.

É realmente uma pena que tudo seja, hoje, só pra inglês ver.