sexta-feira, 23 de maio de 2008

musik

Poucos lugares no mundo me levam tantos suspiros como a Sala São Paulo. Você vai entrando e as palavras vão todas silenciando. Até os passos são medidos de modo a que nenhum ruído seja produzido e nada arranhe a atmosfera mística enclausurada nas colunas que surgem do nada e sustentam o teto de clarabóias azuis.

Eis que tento o absurdo: comprar ingresso para o concerto do dia. Ridículo, isso. Todo mundo sabe que em São Paulo não se compra ingresso pra nada, nem pro cinema, no dia. Isso não existe. Mas, oh yeah, para meu orgasmo auditivo, um velhinho de chapéu vendia o ingresso do acompanhante que não veio. Ingresso bom, lugar bom, tudo feliz. Só fiquei com pena de um rapazinho atrás de mim, que só podia comprar o ingresso do balcão, mais em conta. Pensei em ajudá-lo, mas achei pouco apropriado. Devagar, olhando pras cousas todas, vou estudando as pessoas, os jeitos, e a vejo. Velhinha elegante, procurava pessoas na fila. Procurava alguém com tanto cuidado que não pude deixar de observar. A velhinha bate os olhos no sujeiro que havia estado atrás de mim e...
"--Você tem ingresso?
--Não, não tenho.
-- Olha, toma esse aqui.
-- Eu não posso pagar, esse é da platéia.
-- E quem falou em pagar? Toma e cala a boca."
Olhos esbugalhados, sobretudo levando em consideração o povão que matava e morria por um ingresso extra.
Talvez eu tenha ficado mais feliz que o sujeito, tal a minha felicidade em constatar que bondade ainda existe.

Um comentário:

Anônimo disse...

Não conheço a Sala de São Paulo. Na verdade, a única coisa que conheci foi o trânsito quando estive de passagem por lá. Mas, olhando a foto, fez-me lembrar da primeira vez em que eu entrei no Teatro de Santa Isabel. Fui assistir à Vanessa da Mata (ainda não a conhecia na época). Bom, voltando ao teatro, sentei-me na platéia. Devo ter ficado com torcicolo, pois, até as luzes se apagarem, não consegui parar de olhar para todos os detalhes. O teto, as paredes, o palco, fiquei embasbacado. Enfim, a sua foto ficou muito boa!
Quanto à generosidade, continuo com a esperança de que não seja ela a exceção.