É aquela cousa: sempre que o avião vai pousar penso que vou morrer. Aí passa o filminho da vida, etc e tal e sempre fico muito puto por não conseguir lembrar de muita coisa. Mas como eu nunca moro nesse momento, é um problema resolvível.
Mas, enfim, o avião pousou. Ê, tô no Rio. O 'ê' foi uma celebração que durou não mais que meia hora, porque ainda na saída do aeroporto tinha um engarrafamento do caraleo. Mas como V. é paciente, a gente saiu conversando o caminho todo:
[o carro parado na Linha Vermelha; à direita uma favela, à esquerda um matagal]
eu: Vey, essa é a hora em que a gente leva um tiro?
ele: Não, Vey. Só rola tiro se tiver favela de um lado e de outro.
eu: Ah tá.
Eu adoro o Rio.
domingo, 22 de junho de 2008
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Oi, meu nome é Paulo e eu sou um viciado.
Veja, voce sabe que estah ficando dependente de equipamentos eletronicos (ou jah esta completamente, vai saber...) quando, no taxi, saca o Blackberry do bolso para escrever alguma coisa porque não aguenta passar mais que meia hora sem digitar nada. Essa situacao eh fatalmente agravada quando o sujeito mora sozinho e, por falta de interlocucao, interage basicamente com engenhocas inanimadas. Veja minha cafeteira, por exemplo: sabe-se lah quantas lamurias insones a pobre coitada ja foi obrigada a ouvir entre um cafe e outro.
Claro que ha grandes vantagens em haver um excesso de 'conectividade' (as aspas devem-se ao cliche idiota que a palavra adquiriu). Ao ver uma cena bacana o sujeito não precisa mais de um bloquinho ensebado para tomar nota que, sabem Deus e os garcons, muitas vezes sao perdidas pelos botecos pega-bebo do mundo. Por outro lado, perde-se a naturalidade de rabiscar [agora já tô no computador de verdade] o caderninho na mesa suja de preferência.
Claro que ha grandes vantagens em haver um excesso de 'conectividade' (as aspas devem-se ao cliche idiota que a palavra adquiriu). Ao ver uma cena bacana o sujeito não precisa mais de um bloquinho ensebado para tomar nota que, sabem Deus e os garcons, muitas vezes sao perdidas pelos botecos pega-bebo do mundo. Por outro lado, perde-se a naturalidade de rabiscar [agora já tô no computador de verdade] o caderninho na mesa suja de preferência.É, como rolou um delay entre o início e o fim da postagem, parei pra refletir um pouquinho: putamerda, eu sou um nerd.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Às vezes reclamo de barriga cheia -- literalmente. Mal trabalho às sextas e me permito passar o dia quase todo sentado aqui no Delta do RecAntigo tomando café e comendo toda sorte de porcaria que deixaria Dra. Mari, nutricionista aluna minha, com ânsias profundas de vômito.

Eis que, estando aqui no finzinho da tarde, me dei conta que teria uma aula dentro de uma hora. A coisa de quatro, cinco ruas daqui. E me vi pensando em como diabos chegaria lá sem ser assaltado. Aí bate aquela coisa: pô, que bom que eu tô indo embora; é, o Rio é um inferno, sujeito metralhando, puta cheirando pó etc e tal. É, no entanto, uma novidade. Uma novidade que, até que me traumatize, vai me deixar tranquilo que nem diazepam.

Eis que, estando aqui no finzinho da tarde, me dei conta que teria uma aula dentro de uma hora. A coisa de quatro, cinco ruas daqui. E me vi pensando em como diabos chegaria lá sem ser assaltado. Aí bate aquela coisa: pô, que bom que eu tô indo embora; é, o Rio é um inferno, sujeito metralhando, puta cheirando pó etc e tal. É, no entanto, uma novidade. Uma novidade que, até que me traumatize, vai me deixar tranquilo que nem diazepam.
Ps.: Mas vou sentir saudades do Mercado de São José.
Pss.: E de Dona Nara, minha senhoria, que vive xeretando minha correspondência.
Psss.: Ah, e não poderia esquecer Ceará, o douto garçon do Balcão Centenário, que entendendo meu liseu sempre me serviu doses extragenerosas de The Famous Grouse.
domingo, 8 de junho de 2008
Quando o telefone tocou pela primeira vez, atendi e, como meu possível interlocutor não era culpado pelo meu desleixo em deixar o telefone no gancho, resolvi ser quase simpático:"--Alô?
-- Quem fala?
-- Quer falar com quem?
-- Quem fala?
-- Olha, quem tá falando?
-- Eu que quero saber com quem estou falando!
-- Mas você ligou pra minha casa. Quem é?
[Silêncio seguido por tuuuu tuuuu tuuuu tuuuu]"
É por essas e outras que eu prefiro deixar o telefone fora do gancho. E se ainda não cancelei é porque tenho preguiça de passar uma hora ao telefone com a companhia telefônica.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
sexta-feira, 23 de maio de 2008
musik
Poucos lugares no mundo me levam tantos suspiros como a Sala São Paulo. Você vai entrando e as palavras vão todas silenciando. Até os passos são medidos de modo a que nenhum ruído seja produzido e nada arranhe a atmosfera mística enclausurada nas colunas que surgem do nada e sustentam o teto de clarabóias azuis.
Eis que tento o absurdo: comprar ingresso para o concerto do dia. Ridículo, isso. Todo mundo sabe que em São Paulo não se compra ingresso pra nada, nem pro cinema, no dia. Isso não existe. Mas, oh yeah, para meu orgasmo auditivo, um velhinho de chapéu vendia o ingresso do acompanhante que não veio. Ingresso bom, lugar bom, tudo feliz. Só fiquei com pena de um rapazinho atrás de mim, que só podia comprar o ingresso do balcão, mais em conta. Pensei em ajudá-lo, mas achei pouco apropriado. Devagar, olhando pras cousas todas, vou estudando as pessoas, os jeitos, e a vejo. Velhinha elegante, procurava pessoas na fila. Procurava alguém com tanto cuidado que não pude deixar de observar. A velhinha bate os olhos no sujeiro que havia estado atrás de mim e...
"--Você tem ingresso?
--Não, não tenho.
-- Olha, toma esse aqui.
-- Eu não posso pagar, esse é da platéia.
-- E quem falou em pagar? Toma e cala a boca."
Olhos esbugalhados, sobretudo levando em consideração o povão que matava e morria por um ingresso extra.
Talvez eu tenha ficado mais feliz que o sujeito, tal a minha felicidade em constatar que bondade ainda existe.
terça-feira, 20 de maio de 2008
cosmopolitismo
Tenho cá pra mim que a teoria da relatividade de Einstein e a maçã de Newton foram frutos sobretudo do tédio. O sujeito entediado é capaz da atrocidades mais humanas. Observe, meu caro e único leitor, que no momento em que vos escrevo estou enlatado, tal qual um arenque, sardinha, atum etc etc, num avião que só serve café com açúcar. Porra, café não é uma bebida doce! Depois de um atraso de hora e meia [e a certeza de duas conexões pertidas, põe mais hora aí] ainda cometem o hediondo delito de me servirem café com açúcar. Onde diabos reside meu direito de escolha? E o meu direito de ser uma criantura misantropa e individualizada em consonancia com o artigo quinto da Constituição que os fulanos de tal lá em BSB [repare na abreviatura aeronáutica] mandaram imprimir? É, este nosso, um país perdido.
Mas veja que nem tudo vai mal. Com esse negócio de investment grade, que ainda não me dei o trabalho de chegar no google para ver o que diabos é, tem até mendigo falando inglês.
Eis que, saindo pro almoço lá no RecAntigo com minha aluna, empacotado numa pólo branca com a gola virada pra cima [pela manhã eu havia eleito a moda ‘oi, eu sou pitboy’] e tudo mais, vou gastando minha sola na Rua do Bom Jesus. Aí chega o fulano cheirando a óleo de rícino [que nunca cheirei, mas com um nome feio desses boa cousa não deve ser] me olha e diz: ‘help, my friend’. Como a primeira palavra na língua de tia Beth normalmente liga meu ‘english mode on’ já fui respondendo que ‘sorry, I can’t’. Aí foi que eu me dei conta que, além de falar inglês, o Zé havia tomado café da manhã com Baco. Zé olha pra mim e diz: “but of course you can”. Pra evitar delongas, arrumei um real no bolso e fui embora. Com o tilintar das moedas é que me dei conta de que o sujeito não havia falado português. Creia: a globalização chegou aos albergues da prefeitura.
Mas veja que nem tudo vai mal. Com esse negócio de investment grade, que ainda não me dei o trabalho de chegar no google para ver o que diabos é, tem até mendigo falando inglês.
Eis que, saindo pro almoço lá no RecAntigo com minha aluna, empacotado numa pólo branca com a gola virada pra cima [pela manhã eu havia eleito a moda ‘oi, eu sou pitboy’] e tudo mais, vou gastando minha sola na Rua do Bom Jesus. Aí chega o fulano cheirando a óleo de rícino [que nunca cheirei, mas com um nome feio desses boa cousa não deve ser] me olha e diz: ‘help, my friend’. Como a primeira palavra na língua de tia Beth normalmente liga meu ‘english mode on’ já fui respondendo que ‘sorry, I can’t’. Aí foi que eu me dei conta que, além de falar inglês, o Zé havia tomado café da manhã com Baco. Zé olha pra mim e diz: “but of course you can”. Pra evitar delongas, arrumei um real no bolso e fui embora. Com o tilintar das moedas é que me dei conta de que o sujeito não havia falado português. Creia: a globalização chegou aos albergues da prefeitura.
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